não sei construir casas, nem os tijolos que as fazem, nem o mundo em que assentam, a partir de grãos de areia de sete cores. não as sei desenhar, em base e em altura, em frascos que vendo, com a minha prepotência de bónus, a quem não sabe construir casas nem as desenhar com areia em frascos.não sei inventar as pessoas que podiam morar nelas, nesse mundinho ou neste, em letras bem ritmadas e pobremente rimadas, e cantar sobre elas para a inveja de todos. nem sei esquecer a hipótese de lhes esfregar na cara, como areia, essa felicidade nascida da falta dela nos outros, e criar uma contentação própria.tão-pouco ou um bocadinho menos sei escrever. quer sobre casas, quer sobre pessoas, quer sobre mim. porque não sei inventar o que não lá está, e ainda assim sou uma obra minha.
um texto de Tiago C.
um texto de Tiago C.
2 comentários:
As coisas de que me lembro
lembro-me da primeira vez que te vi no Frágil
o cabelo, o corpo, o copo na mão
o rosto imaculado
lembro-me do teu sorriso indiscriminado
afinal sorriste primeiro para o rapaz do lado
mas quem sorriu de volta fui eu
lembro-me do primeiro beijo depois do Alcântara-Mar
alguém nos chamou paneleiros e fomos beijar dali p’ra fora
tu pensavas que eu nunca mais
mas eu gosto de namoros longos antes do primeiro beijo
lembro-me do sexo nos vãos de escada salgados de Lisboa
de te atirar ao chão com força numa rua às escuras
do teu corpo tão mais magro que o meu
das horas curtas em que te tinha nos braços
lembro-me da Tertúlia
desses amigos novos que me ofereceste
do Bairro Alto que me abriste
do medo todo que eu tinha de perder-te
lembro-me da nossa casa em Benfica
da tua pasta de atum em três tempos
da Amália a cantar na nossa sala em cima da garagem
da primeira vez que te chamei xinho ao acordar
lembro-me da Dona Adozinda e do pequeno-almoço na cama
das nossa fúrias na Intercultura
das nossas pazes regadas a sexo também
dos silêncios que se foram cultivando como urzes
lembro-me dos livros que me desvendáste
dos discos que me descobriste
eu que só conhecia a rádio e sequioso
já então sonhava alto a cantar
lembro-me de subir a calçada
com o amor modorrento de quem já não espera
lembro-me dos teus copos
dos meus projectos a longo prazo adiados
lembro-me da nossa incompatível Bruxelas
do fio que se foi quebrando
da noite em que fechei a porta
dos teus postais envenenados
lembro-me de chorar quando o Paulo morreu
da mesa que tu pintáste de preto e nos serviu tanto
do orgulho nos meus sofás burgueses que tu herdáste
dos passarinhos que nos sujavam a sala com volteios assustados
lembro-me de me ter esquecido de ti e de nós
de ter mudado a minha maneira de andar
de ter outras vontades menos secretas
de já não saber de cór o teu aniversário
mas lembro-me
Filipe de Bruxelas
e eu agora lembrei-me de coisas que não lembrava há muito
mas lembro-me
Zé de Lisboa
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